Artigo no Semanário Alemão "Die Zeit" – Para onde foi o dinheiro?

Este é um artigo que espelha a crise como nenhum outro. Uma peça de jornalismo de grande utilidade para o leitor sem experiência em mercados financeiros. Demora cerca de 15 minutos a ler, mas vale cada minuto.

Este artigo ajuda a clarificar ideias quanto ao momento que vivemos.

Chegou a mim por email e vinha como traduzido por Elisabete Antunes, a quem agradeço desde já mesmo sem conhecer.

Todas as marcas referidas são propriedade dos seus respectivos donos.

DIE ZEIT, 27.11.2008 Nº. 49 [http://www.zeit.de/2008/49/DOS−Wo−steckt−das−Geld]

Para onde foi o dinheiro?

A crise financeira destruiu enormes fortunas. Os mil milhões de Euros

não desapareceram, mas estão a ser redistribuídos. A procura de

vestígios decorre nas empresas de construção americanas, nos gestores

bancários alemães e nos investidores chineses.

A crise financeira

de Kerstin Kohlenberg e Wolfgang Uchatius

Na tarde do dia 31 de Outubro, no 2º. andar de uma moradia pintada de amarelo, no centro de Frankfurt, um fax começa a imprimir. Sai um total de 5 páginas. Na primeira página lê-se o cabeçalho do Commerzbank, na última a assinatura do Presidente do Conselho, Martin Blessing. Algures pelo meio encontra-se o número decisivo: 8,2 mil milhões de Euros. É este valor elevado que o Commerzbank pede à República Federal da Alemanha, representada pelo ”Soffin”, o fundo extraordinário criado recentemente para a estabilização dos mercados financeiros. Os seus 21 colaboradores instalaram os seus gabinetes na mansão amarela apenas há poucos dias. A crise recorre a este local.

Na manhã do dia 17 de Novembro às 9H30, o Presidente do Conselho da Hypo Real Estate, Axel Wieandt, que se encontra na sala de conferência perto do Englischer Garten em Munique, agarra o telefone e fala com analistas financeiros de todo o mundo. Durante uma hora e dois minutos Wieandt relata sobre o que se passa no banco. O resumo: 3,05 mil milhões de Euros de prejuízos no terceiro trimestre de 2008.

Na noite do dia 19 de Novembro Josef Ackermann, o chefe do Deutsche Bank, encontra-se na periferia da zona governamental em Berlim, na sala da Academia Católica, sentado num cadeirão azul claro perante 300 pessoas a quem diz que “esta é praticamente a primeira crise global e ainda nos encontramos na fase de gestão da crise”.

Quanto tempo durará esta crise? De acordo com a estimativa do Banco da Inglaterra os institutos financeiros em todo o mundo já perderam 2,8 bilhões de dólares. São 2800 mil milhões, o valor equivalente de 140 milhões de modelos VW Golf. Diz-se que o dinheiro “queimou”, “se evaporou”, “desapareceu”. E a destruição do dinheiro continua. A que montante ascenderá o prejuízo? Quantas falências se seguirão? Quantos mais bancos e grupos industriais terão que ser auxiliados pelo Governo? Ninguém sabe. No entanto a pergunta provavelmente mais interessante já tem resposta.

Para onde foi o dinheiro?

Os milhões transformaram-se em mármore no deserto do Nevada.

Esta pergunta é o início de uma longa viagem pelo deserto americano, pelo sistema bancário em Frankfurt e pela gestão de fundos na China. O Primeiro-ministro italiano, e empresário dos meios de comunicação social, Sílvio Berlusconi também surge na história, assim como uma pensionista alemã, que teve a sorte de não perder um único Euro na crise financeira. Esta senhora também desempenha um papel importante na crise, pois nestas semanas tem ajudado a salvar o mundo com o seu dinheiro, apesar de não fazer a mais pequena ideia disso.

Durante a busca do dinheiro será demonstrado que é raro o dinheiro desaparecer para sempre e pouco provável que ele queime. No entanto veremos que muda de proprietário com elevada frequência.

Onde está então o dinheiro? Onde estão os 2,8 bilhões de dólares?

Existem muitas pessoas na Alemanha a quem poderíamos fazer esta pergunta: economistas, conselheiros financeiros, gurus da bolsa. Há um homem que parece estar mais apto para responder do que a maioria, porque, aparentemente, é um dos poucos que realmente percebeu os acontecimentos no mercado nos últimos anos.

O homem chama-se Max Otte. Ele acaba de chegar de uma palestra em Frankfurt, amanhã voa para Viena onde aparecerá em televisão. Pelo meio tem uma tarde livre. Actualmente, Otte é muito requisitado. Ele entra no seu apartamento no centro de Colónia, tira o seu casaco e desaperta a gravata. Tem 44 anos e é de estatura baixa e corpulenta. Ainda há dois anos era um professor de economia desconhecido e leccionava no Politécnico (Fachhochschule) em Worms. Quando ligava a televisão via de vez em quando outros professores de economia, que não leccionavam no Politécnico, mas nas Universidades. Faziam quase sempre afirmações sobre o crescimento contínuo da economia e dos valores das acções. Otte defendia uma opinião contrária e estava convencido que o mundo caminhava para uma catástrofe económica. Decidiu escrever um livro no qual previa a queda nas bolsas, o colapso das bancas e a potencial insolvência do grupo americano de construtores de automóveis, General Motors. “Se ler correctamente os sinais que a economia mundial nos transmite, haverá um enorme estrondo”, escreveu Otte. Deu ao seu livro o título “O crash vai chegar” (título original Der Crash kommt). Otte passou a ser o homem que sabia tudo. Já vendeu 200.000 exemplares e a versão em chinês já está a ser editada.

Para onde foi o dinheiro? Otte fica a pensar e diz: “Se quiser saber para onde foi o dinheiro terá que viajar para a os subúrbios das grandes cidades na América. Tem que ver as casas.” Por exemplo este: Mantua Avenue nº. 70 na pequena cidade de Henderson no estado do Nevada.Sobre o palacete paira um toque da Toscana com telhas redondas de barro, obturadores em madeira, uma
varanda coberta e pequenos pinheiros no jardim. Olhando para o horizonte avistam-se os casinos de Las Vegas a brilhar. Olhando em redor vêm-se muitos palacetes, um ao lado do outro.

A povoação chama-se Inspirada. Existem centenas de casas desabitadas, centenas de estruturas em dúzias e estradas como a Via Delle Arti Street ou Palazzo Reale Avenue. Estas estradas pretendem levar um pouco da Itália para a América, mas levam todas ao deserto. Esta terra era precisamente isso – deserto – antes de a empresa imobiliária americana Toll Brothers começar a esbanjar o dinheiro aqui: um monte de areia com alguns cactos.

Este boom prolongou-se por dez anos, os créditos foram atribuídos a quase toda a gente. Foram investidos 550 milhões de dólares no terreno perto de Las Vegas, 790 hectares, do tamanho de 1400 campos de futebol. Outro tanto foi gasto para abrir caminhos, estradas e esgotos. Uma vendedora exageradamente maquilhada abre a porta da casa Toscana nº. 70. Trabalha para os irmãos
Toll há dez anos. Dez anos em que ela e Las Vegas viviam bem. A vendedora aponta para o chão em mármore de 15.000 dólares, para a superfície de trabalho em granito de 1300 dólares, para as escadas em cerejeira de 3500 dólares e para o jacuzzi na casa-de-banho de 1250 dólares.

“Meu nome é Bob Toll.” Ouve-se a voz vinda de um televisor na sala de estar. No plasma gigante passam inúmeros vídeos de vendas dos Toll Brothers. Clientes satisfeitos relatam sobre a felicidade que vivem nas suas casas de sonho.

Já ninguém está a ouvir.

O valor pedido pelos Toll Brother ascende os 600.000 dólares, diz a vendedora. Também avisa que há margem de negociação, pois pretende-se apenas reaver os custos. Mesmo assim não aparecem
compradores, nem para as casas nesta rua, nem em qualquer outra. O dinheiro dos irmãos Toll está preso nas casas.

Portanto, podemos encontrar a primeira resposta à pergunta sobre o paradeiro do dinheiro na cidade fantasma perto de Las Vegas: só no estado do Nevada estão 22.000 casas à venda. Em todo o país existem 4,67 milhões de casas e apartamentos desabitados. Ninguém os quer. Custaram uma média de 212.000 dólares o que perfaz um total de 990 mil milhões presos nas paredes e no chão.

Ao longo de dez anos as empresas de construção americanas edificaram continuamente centenas, milhares de casas denominadas de McMansions com cinco quartos, escadas de acesso, candeeiros imponentes e pórticos. Ao longo de dez anos efectuaram os seus negócios, porque durante dez anos os americanos compravam tudo que tinha quatro paredes.

O dinheiro para isso provinha dos bancos.

Neste contexto, é necessários saber que os empréstimos são a base de qualquer sistema financeiro e que o crédito é o tipo de negócio mais antigo do capitalismo. A pessoa “A” pede um montante emprestado ao banco “B”, que “A” paga com uma taxa, o juro. Trata-se de um bom negócio para ambas as partes. O banco encaixa os juros e obtém um lucro considerável. A pessoa “A” pode investir o dinheiro do empréstimo p. ex. na compra de uma casa que de outra forma seria impossível. Pressupõe-se que “A” possa auferir o crédito.

Como é possível a crise americana afectar todo o mundo?

Nos últimos anos praticamente qualquer americano podia ter um crédito atribuído. Os juros eram mais baixos que nunca e a procura de casas aumentava. Consequentemente também aumentavam os preços. Devido a esse aumento acentuado de preços os agentes imobiliários começaram a contactar empregadas domésticas ou trabalhadores sazonais cujo salário era de cinco dólares a hora. Explicavam-lhes: Se comprar uma casa por 200.000 dólares e depois não for capaz de pagar o crédito, não haverá qualquer problema. Os preços aumentam. Em cinco anos o valor da casa ascenderá os 300.000 dólares. Desta forma poderá levantar um novo crédito sob a casa e pagar o antigo. Nada pode correr mal.

Portanto, as empregadas domésticas e os trabalhadores sazonais acorreram aos bancos. E os bancos atribuíam os créditos. Eles sabiam que se não conseguissem reaver o dinheiro, não havia qualquer problema, pois assim a casa seria deles. Além do mais em cinco anos o valor aumentaria para 300.000 dólares. Tratava-se de um negócio que conhecia apenas vencedores, pelo menos enquanto os preços subiam. Por este motivo as empresas de construção construíam mais e mais casas, 1,2 milhões, ano a ano. E o número de pessoas a pedir cada vez mais dinheiro para as comprar aumentava.

 

Até acontecer o que o economista americano de renome, Robert Shiller, da Universidade de Yale descreve de forma lapidar: “A enorme oferta de novas casas saturou o mercado e os preços dos imóveis começaram a descer.”

De um momento para o outro, milhões de americanos não conseguiam novos créditos para financiar as antigas hipotecas. De um momento para o outro, os bancos hipotecários americanos perceberam que não iriam reaver os elevados montantes que tinham emprestado.

Este dinheiro está preso nos imóveis impossíveis de vender. Está também nos bolsos dos agentes imobiliários e dos proprietários anteriores, que venderam as suas casas com lucros. Está nas mãos dos produtores de cimento, no condutor de retroescavadoras e nos trolhas que, desta forma, provavelmente conseguiram comprar carros japoneses, frigoríficos de marca alemã ou brinquedos para as suas crianças fabricados na China.

São os bancos hipotecários americanos que agora têm falta de dinheiro, não os grupos financeiros alemães, ingleses e suíços. Então como é possível que as más especulações sejam perpetradas por bancos americanos e os institutos bancários em todo o mundo registarem perdas de 2,8 bilhões de dólares? Como é possível que o banco alemão Commerzbank necessite de uma injecção de capital de 8,2 mil milhões de Euros por causa de casas não vendáveis no deserto do Nevada?

Max Otte já disse que para perceber a expansão da crise é necessário dirigir os olhares para a indústria financeira. Desde há semanas as suas palestras têm como tema o mercado de capitais e as bolsas mundiais.
Fala da Wall Street, da América, sua segunda pátria, onde se doutorou, em Princeton, e leccionou em Boston antes de se tornar cidadão americano.

A indústria financeira é predominantemente constituída pelos bancos de investimentos, diz Otte. Bancos como Goldman Sachs, JP Morgan, Morgan Stanley ou Lehman Brothers cujos negócios se prendem principalmente com acções, empréstimos, opções e contratos a prazo. Na verdade não fazem nada de diferente de fabricantes de telemóveis, p.ex. Estão sempre à procura de novos telemóveis, ainda melhores. Os bancos de investimento procuram constantemente novos e melhores títulos de valor. Ambos ambicionam apenas uma coisa, vender os seus produtos.

O produto que faz com que a crise se espalhe por todo o mundo chama-se Mortgage Backed Securities. O primeiro a vender este produto em grande estilo foi um banqueiro de investimentos natural da Itália e a residir em Brooklyn, Nova Iorque. Seu nome é Lewis Ranieri.

As filas de cadeiras pretas do auditório Piper da Universidade de Harvard estão todas ocupadas quando Ranieri sobe ao pódio nos dias da crise. Tem 60 anos. Os cabelos e a barba estão grisalhos. No entanto a sua barriga que, conforme se consta, costumava ingerir Fast Food continua na mesma. Ranieri veio a Harvard explicar como tudo se descontrolou após a sua invenção. Coloca o discurso preparado à sua frente e respira fundo, depois pára e diz: “Bem, vou simplesmente dizer o que me vier à mente.” Diz isso numa linguagem de classe operária de Nova Iorque. Ranieri não estudou em Harvard, nem em Stanford ou Princeton. Na verdade nem estudou, mas conseguiu ir mais longe que muitos banqueiros provenientes de universidades elitistas.

Há 30 anos os créditos eram objecto de especulação para os ricos.

Em 1968, com 20 anos de idade, iniciou a sua carreira profissional no departamento de correio do banco de investimentos Salomon Brothers, em Nova Iorque. A organização deste departamento foi tão eficiente que o banco lhe ofereceu trabalho como vendedor de títulos de valor. “Ele era desregrado, fala-barato e avarento”, recorda um colega de então, “mas tinha o charme de uma pessoa que queria ser amada.” Em 1978 Ranieri foi promovido a chefe do departamento de hipotecas do Salomon Brothers criado pouco tempo antes. Os bancos hipotecários americanos já tinham distribuído no país créditos no valor de 1,2 bilhões de dólares. Já nesse ano o mercado de hipotecas era maior que todo o mercado de acções dos EUA. Enquanto milhões de pessoas ganhavam com o mercado das acções, os créditos hipotecários eram um negócio entre duas partes apenas. O dinheiro ia do banco “B” para a pessoa “A” e vice-versa. Ranieri alterou isso. Ele fez do mercado hipotecário uma enorme bolsa, na qual qualquer um podia adquirir cotas das hipotecas a qualquer altura. Ele transformou o crédito que “A” pediu ao banco americano “B” em título de valores. Assim, estes títulos já podiam ser vendidos ao banco alemão “C”, ao banco inglês “D” e ao banco suíço “E”.

Ranieri juntou várias hipotecas individuais num grande pacote que, dividido em partes, podia ser vendido – o tal Mortgage Backed Securities conhecido por MBS. Claramente dito estamos a falar de títulos de valor seguros por hipotecas. A partir daí os compradores de casas pagavam os juros das hipotecas apenas pró-forma aos bancos hipotecários. De facto, o dinheiro caía nos bolsos dos que tinham adquirido os títulos: bancos em todo o mundo, seguradoras, fundos de investimentos e seus clientes. Todos estes compradores apostavam no pagamento dos créditos das muitas pessoas “A”.

Teoricamente este negócio era bom para todos. O cliente recebia o crédito e comprava a casa, o vendedor dos títulos de valor recebia os juros e o banco hipotecário não precisava de esperar anos a fio para receber o dinheiro emprestado. Ele tinha vendido o crédito e já podia atribuir um novo. No início tudo funcionava às mil maravilhas. Os títulos MBS de Ranieri tornaram-se bestsellers. Outros bancos de investimento entraram no negócio.

Casas de dinheiro e investidores financeiros de todo o mundo queriam estes títulos: o Deutsche Bank, o UBS suíço, o Crédit Agricole francês, o Royal Bank of Scotland britânico, o Grupo Mizuho japonês. A certa altura os pedidos de títulos MBS ultrapassavam a quantidade de hipotecas existentes nos EUA.

Portanto, era preciso arranjar mais hipotecas. Os bancos hipotecários flexibilizaram os seus critérios de atribuição. Deixaram de pedir capital próprio, não pediam informações sobre os rendimentos, interessavam-se por trabalhadores sazonais e empregadas domésticas. E porque que motivo não devia ser permitido aos desempregados comprar três casas? Em pouco tempo atribuiu-se o nome Suprime a este tipo de crédito – de segunda classe. Nos anos 2000 a 2005 o volume subiu em 495 mil milhões de dólares para 625 mil milhões. Juntamente com os créditos de primeira classe, atribuídos a médicos e advogados solventes, foi possível transformar também as hipotecas Subprime em títulos de valor vendáveis.

Em 2005 o Goldman Sachs distribuiu dez mil milhões de dólares em prémios.

O tom de voz de Ranieri subiu. “Quando inventamos o sistema, a compra de uma casa era uma decisão para a vida!”, diz ele. Mais tarde só interessava apostar em preços imobiliários em alta. “Mas os preços podiam baixar, mesmo que não quiséssemos acreditar nisso.”

Ele também não queria.

Enquanto as empregadas domésticas e os trabalhadores sazonais especulavam para o futuro, os bancos de investimento inventavam novos produtos financeiros que escondiam os riscos gigantescos destas hipotecas.
O que, em circunstâncias normais, seria apelidado de burla tinha agora nomes mais complicados como Collateral Debt Obligations ou Credit Default Swaps. Trata-se de títulos de valor que não têm qualquer explicação económica, diz o jornalista económico Wolfgang Münchau no seu livro “Vorbeben.Was die globale Finanzkrise für uns bedeutet” (tradução livre: “Tremor. O que a crise financeira global significa para nós”). Excepto numa coisa: “Que estes oferecem altas taxas aos bancos de investimento que os puseram no mercado.”

Estas taxas aumentaram os lucros dos bancos de investimento e foram encaminhadas via pagamentos de prémios para os colaboradores. O Goldman Sachs p.ex., um dos bancos de investimento nova-iorquinos mais antigos distribuiu pelos seus colaboradores um bónus de dez mil milhões de dólares em 2005, no auge do boom. Fazendo as contas, cada colaborador receberia 500.000 dólares, mas não foi assim que o banco fez as contas. Só o administrador de então, Henry Paulsen recebeu 38,3 milhões. Entretanto vemos Paulsen na função de Ministro da Finanças dos EUA. O dinheiro que esta semana procura desesperadamente também foi para o seu bolso.

Na altura o dinheiro foi dos bancos de todo o mundo para os bancos hipotecários americanos, mas um fluxo secundário levava o dinheiro para os bancos de investimento e seus gestores. Dos bancos hipotecários passou para os compradores de casas. E daí teria regressado para os bancos de todo o mundo e para os proprietários de títulos de crédito, se os trabalhadores sazonais e as empregadas domésticas tivessem capacidade de saldar as dívidas e se os preços imobiliários tivessem subidos.

No centro de Frankfurt existe uma zona de bancos, com um arranha-céus mais alto que os outros. Tem 259 metros de altura e é o segundo maior edifício da Europa. Trata-se de uma torre triangular de vidro e dos últimos pisos irradia um brilho amarelo de noite, parecendo pintado com cores florescentes. É o amarelo do Commerzbank.

Na torre do Commerzbank estão 300 especialistas à procura da antiga fortuna.

A torre tem 50 pisos e nove jardins artificiais onde os colaboradores podem tomar café e vislumbrar a cidade. No 19º. piso nascem bambus, no 35º. oliveiras e quatro pisos acima encontra-se o departamento financeiro. Entre os pisos 30º. e 42º. trabalham 300 pessoas. Não dão créditos, nem vendem títulos de valor. Na realidade o seu trabalho nada tem a haver com negócios bancários. Mesmo assim têm actualmente o trabalho mais importante no Commerzbank.

Têm que calcular quanto dinheiro o banco possui ou quanto lhe falta. Mais precisamente: Quanto ainda valem as propriedades do banco, os títulos de valor, os imóveis e os créditos. Chamam a este processo levantamento do valor. Os resultados são enviados para o último piso onde se encontra a Administração, directamente para a mesa de Eric Strutz.

Têm que relatar muitíssimos valores, este mês.

Strutz é o Presidente do Conselho do Commerzbank. Ninguém sabe mais sobre a fortuna do banco do que ele. Tem 44 anos de idade e é um dos mais jovens a ocupar esta posição na Alemanha. É um homem corpulento com um forte aperto de mão. Quando fala olha o interlocutor nos olhos, mesmo quando fala sobre assuntos desagradáveis, dizendo p.ex. “Este desenvolvimento dos mercados não era previsível.”

O Commerzbank investiu 1,2 mil milhões de Euros nos títulos Subprime. Ainda detém a maioria dos títulos, mas já ninguém quer comprá-los. Já não existe mercado para estes títulos. No seu balanço, o Commerzbank vê-se obrigado a contabilizar estes títulos com o valor de mercado exacto. Embora os títulos e as hipotecas ainda existam já não há mercado para eles. O dinheiro desapareceu.

Uma parte desse dinheiro desapareceu para sempre nas casas vazias e em eminente degradação, mas a outra parte provavelmente reaparecerá. Na realidade ainda há detentores de créditos que pagam as suas dívidas. Muitos americanos conseguí-lo-ão. Trabalharão mais, gastarão menos e pagarão os créditos. Desta forma irá dinheiro para os proprietários dos títulos, voltará a haver compradores para eles, abrindo assim o caminho para voltarem a ter um valor de mercado. Só é preciso aguardar até que o caos se resolva. Tal como faz o pequeno accionista, cujas acções de veículos se encontram no valor mais baixo de sempre. Se for inteligente e tiver a capacidade financeira, espera até que a conjuntura se recomponha. Depois, o valor das acções aumentarão e o dinheiro voltará. O problema é que os bancos não podem esperar. “Temos que apresentar um relatório trimestral a cada três meses, um relatório anual de doze em doze meses”, diz Sturtz. Embora os governos tenham alterado as regras do balanço na consequência da crise, os bancos continuam a ter que avaliar a maioria dos títulos de valor ao preço actual do mercado. Se o valor no dia do fecho for baixo, o prejuízo aumento. Se for alto, o banco vai à falência. Só na América 304 institutos hipotecários e 22 bancos pediram a insolvência nos últimos meses. O maior banco de investimentos e o mais famoso foi o Lehmann Brothers. Pouco depois de este falir seguiram-se os três maiores bancos da Islândia que também arrastaram o próprio estado da Islândia para a ruína. Se a Islândia faliu o que acontece com a Itália? A Grécia não estará também em perigo? E as finanças da Croácia estarão sólidas?

Esta é a grande pergunta dos últimos meses que os investidores financeiros de todo o mundo se colocam. De um momento para o outro os títulos de valor, que nada têm a haver com as hipotecas dos EUA, também perdem valor, nomeadamente os créditos estatais da Islândia, da Itália e da Grécia.

Para os 300 especialistas em balaço do Commerzbank isto significa reavaliar constantemente o capital do seu banco. Está cada vez menor. Os números que os contabilistas entregam esta semana a Eric Strutz permitem-lhe reproduzir o curso da crise. Correcções dos valores na sequência da crise Subprime desde Agosto: 144 milhões de Euros. Depois da falência do Lehman: 371 milhões de Euros. Seguem-se as dificuldades na Islândia: 260 milhões de Euros.

Quem ainda tem dinheiro investe-o e depois da crise será mais rico do que antes.

O resultado é que os bancos em todo o mundo precisam urgentemente de dinheiro para compensar as perdas de valor, muito mais dinheiro do que tinha sido investido nos créditos americanos Subprime. De repente já não se tratava de cem milhões de dólares, mas de muitos bilhões.

Outro resultado também é que as bolsas de todo o mundo de repente oferecem muito dinheiro para ganhar.

Mas as acções de quase todas as empresas não estão a perder valor desde há muitos meses? Não se fala de 23 bilhões de dólares que arderam nas bolsas?

Exactamente. O dinheiro desapareceu, mas não queimou. Evaporou-se e isto tem outro significado nas bolsas. É como o vapor que se transforma em água quando arrefece. Assim, o dinheiro torna-se líquido e aparece.

Acontece que em muitos casos agora pertence a outras pessoas.

“Vá ao 2iq e pergunte pelo Sílvio Berlusconi” disse Max Otte.

Num edifício de escritórios junto a um cruzamento e perto do edifício de bancos em Frankfurt encontram-se os irmãos Patrick e Robert Hable a avaliar os dados do mercado de capitais. Trata-se de dados especiais, os denominados negócios de insider.

Basta premir na tecla e Patrick Hable lê no monitor quem são os gestores que compraram acções das suas empresas para o seu depósito particular. São imensos. “Os dirigentes aproveitam os baixos valores da crise para comprar acções económicas”, diz Hable.

Levará muito tempo até o valor das acções aumentar e estabilizar. Mas quando chegar o momento uma grande parte dos bilhões que desapareceu das bolsas durante a crise ressurgirá. E pertencerá aos que investiram durante a crise, aos gestores de topo, aos investidores ricos, portanto aos que já tinham recebido o dinheiro nos anos passados. Um exemplo é Silvio Berlusconi. Em meados de Outubro o Primeiro-Ministro italiano e também empresário investiu 16 milhões de Euros em acções da sua empresa de meios de comunicação, a Mediaset, no momento em que esta tinha atingido o valor mais baixo de sempre.

Outro exemplo é Warren Buffet. O investidor financeiro, e homem mais rico do mundo, acabou de comprar parte do grupo americano General Electric por 2,1 mil milhões de dólares.

E há também o príncipe saudita Alwaleed Bin Talal, que na semana passada anunciou a compra de acções da empresa americana Citibank, na qual o governo dos EUA injectou um capital de 20 mil milhões de dólares, por 350 milhões de dólares. A China aproveita a crise para entrar nas empresas ocidentais a baixo custo.

Um dos maiores vencedores da crise poderá ser um homem magro com óculos, que fala em tom baixo e sorri frequentemente entre as frases que pronuncia. O homem chama-se Gao Xiqing. No interesse do seu superior, a República da China, investirá 80 mil milhões de dólares em empresas estrangeiras nos próximos meses. Gao Xiqing é chefe da China Investment (CIC), um dos maiores fundos estatais do mundo criado recentemente.

Há vinte anos, no início do verão de 1989, o homem de 55 anos participou na manifestação na Praça da Paz Celestial (ou Praça de Tiananmen) em Pequim. O exército matou vários milhares de pessoas, mas Gao abandonou a praça antes deste acontecimento. Conforme afirma mais tarde, tinha chegado à conclusão que havia uma melhor forma de reforçar a democracia na China e desenvolver a economia. O governo investiu 200 mil milhões de dólares na CIC. A missão de Gao Xiqing é aumentar a riqueza do estado chinês. No ano passado Gao adquiriu uma parte da Morgan Stanley, o segundo maior banco de investimentos nos EUA por cinco mil milhões de dólares. Em Abril entrou com 4,4 mil milhões na JC Flowers, o fundo de um antigo gestor do Goldman-Sachs, que tinha como objectivo a compra económica de empresas financeiras debilitadas. Meses mais tarde, em Setembro, Gao desloca-se aos EUA e negoceia de novo com o chefe do Morgan Stanley. Ele pretendia aumentar a sua participação no banco para 49 porcento. No entanto, quem ganhou foi o gigante dos bancos japoneses Mitsubishi UFJ. Diz-se que foi por motivos políticos. Já há muito
tempo que os políticos americanos suspeitavam que o CIC pretendia comprar o seu país.

Gao Xiqing dá sempre a mesma resposta, que a influência política não é da sua conta. Só queremos fazer lucro.”

Ainda só estamos no início.

No final da conversa Max Otte colocou um livro na mesa. Tem como título Der große Crash 1929 (título original: Great Crash 1929). O autor, John Kenneth Galbraith, morreu há dois anos com 97 de idade. Ele é considerado um dos economistas mais importantes do século XX. No seu livro explica como se desenvolveu a crise financeira mundial dos anos 30. Uma editora alemã reeditou o livro e Otte escreveu o prefácio.

Nos anos 30 os bancos também foram à falência e as acções perderam valor. Galbraith avançou com uma explicação interessante. Os ricos tinham-se tornado demasiado ricos.

O 0,1 por cento dos americanos mais ricos detinha nessa altura perto de 40 por cento do capital total. Como resultado, Galbraith aponta que muitos não sabiam o que fazer com o dinheiro, portanto começaram a especular e a procurar novos produtos de investimento.

Nunca mais a riqueza dos EUA ficou distribuída de forma tão desequilibrada como então. Desde há alguns anos a situação parece-se inevitavelmente com os dos anos dourados 20. E mais uma vez chegamos a uma grande crise.

Os ricos tornaram-se novamente demasiados ricos?

No entanto, a perspectiva pode dar uma volta de 180 graus. É possível que os americanos pobres fossem demasiado pobres, e não apenas eles, os trabalhadores sazonais e as empregadas domésticas, mas também a classe média. Entretanto, os 40 por cento da classe menos privilegiada detêm apenas 0,2 por cento do capital total dos EUA. Quem, no passado, quisesse manter o passo a nível social só tinha uma opção. Tinha que levantar um crédito para os estudos dos filhos, para o seguro de saúde, para a casa.

Por fim haviam muitas pessoas incapazes de pagar as suas dívidas. Por este motivo, é agora o estado a pagá-las em quase todo o mundo.

Em praticamente todos os grandes estados industrializados os respectivos governos já impuseram programas de salvação estatais. Querem abastecer os bancos com dinheiro e equilibrar pelo menos uma parte dos prejuízos causados pela crise financeira. Na Alemanha os bancos são obrigados a enviar um fax ou uma carta para a vivenda amarela em Frankfurt, na Grã-Bretanha nem necessitam de entregar um requerimento, pois recebem o dinheiro de qualquer forma como acção preventiva.

No fundo são agora os estados do mundo a financiar as novas casas na América, as provisões dos agentes imobiliários, os prémios dos banqueiros de investimento, os salários dos operários da construção.
Mas ainda há uma pergunta por responder. De onde vem o dinheiro que os governos e os estados necessitam agora?

Os estados estão a pedir créditos para auxiliarem a economia. A resposta adequa-se perfeitamente a esta crise, tendo em conta como tudo começou. A Alemanha, os EUA, a Grã-Bretanha, todos se comportam como os compradores de casas americanos. Pedem um crédito e contraem dívidas.

Na Alemanha este processo é da responsabilidade de uma empresa que se chama Agência Financeira da República da Alemanha e pertence a cem por cento ao estado alemão. No ano passado os 330
colaboradores desta empresa levantaram créditos no valor de 220 mil milhões de Euros para a Alemanha. A maioria destas dívidas só foram contraídas para poder pagar outros créditos já existentes. No entanto, desta vez foram mais 14 mil milhões de Euros.

A agência financeira consegue este dinheiro através da venda de títulos de valor, as chamadas letras de câmbio governamentais ou bonds, que não são outra coisa que notas promissórias. A República Federal compromete-se a pagar o valor destas notas em cinco, sete ou dez anos ao comprador, obviamente com juros. Os compradores são p.ex. grandes fundos de investimento no Japão, nos EUA, na Singapura ou na Europa de Leste. E também a Gisela Schmidt, uma pensionista da Baixa-Saxónia.

Tinha investido 10.000 Euros. Isto foi na primavera, ainda antes do crash. Mantinha o dinheiro durante anos na caderneta até que o seu gestor de contas a convenceu de que estava a cometer um erro, porque assim não ganharia juros.

O gestor queria vender-lhe novos títulos de valor, certificados de um banco americano de nome Lehman Brothers. “É dinheiro seguro”, dizia ele, “não deve perder a oportunidade”.

Com o seu título de valores federal a pensionista Gisela Schmidt ajuda a salvar os bancos. Gisela Schmidt de 69 anos, viúva e antiga secretária disse não. “Obviamente não me aventurarei nessas modernices que não entendo.” Passados dois meses a Lehman Brothers faliu.

Pois, a Gisela Schmidt comprou algo que já existe há décadas: um título de valores federal. O montante transferido para a conta da República Federal da Alemanha no Bundesbank em Frankfurt foi de 10.000 Euros. O dinheiro da Gisela Schmidt contribui para o financiamento do estado e ajuda a salvar os bancos., mesmo que ela não se aperceba.

Ela comprou o título de valores federal porque julgou ser um investimento seguro e por receber o seu dinheiro com juros após 7 anos. No dia 23 de Setembro de 2015 a Republica Federal da Alemanha transferir-lhe-á 12431 Euros e ela ganha dinheiro com as dívidas do estado. “O dinheiro irá para o meu neto”, diz ela, “a pensão é-me suficiente.”

O neto chama-se Max, tem 14 anos e é fã do clube de futebol Hamburger SV. A crise financeira não o interessa. É possível que lhe suscite interesse daqui a sete anos, quando eventualmente já ganhará o seu salário, quando o governo possivelmente aumentará de novo os impostos, porque a dívida pública sofreu um crescimento enorme. É possível que o Max venha a perceber que os seus impostos são o fim de um grande fluxo de dinheiro, que já foi gasto à muito tempo no outro lado do Atlântico, na América. Tudo isto, porque outrora parecia ser um bom negócio construir uma mansão fabulosa com um véu de Toscana.

Colaboração de: Frank Sieren
Referente ao mesmo assunto
ZEIT ONLINE 47/2008: O que a crise económica realmente significa para si (título original:
Was die Wirtschaftskrise für Sie bedeutet)
A Alemanha encontra-se no auge da queda. Quais são as consequências para o cidadão
normal? O que pode a política fazer contra esta situação? Cinco perguntas e respostas.
[http://www.zeit.de/online/2008/47/fragen−zur−rezession]
DIE ZEIT 46/2008: Após a bancarrota (título original: Nach dem Bankrott)
A moda da privatização chegou ao fim. Não é o mercado, mas a política que tem que assumir a
responsabilidade pelo bem-estar geral: Uma conversa com o filósofo Jürgen Habermas
[http://www.zeit.de/2008/46/Habermas] ]
ZEIT ONLINE 43/2008: Para onde foi o dinheiro? (título original: Wo ist das ganze Geld
geblieben?)
No crash desapareceram mil milhões. Para onde? Onde ficaram os montantes exorbitantes
que os bancos e o governo vão buscar para prestar auxílio? Uma explicação em gráfico
[http://www.zeit.de/online/2008/44/bg−finanzkrise]
DIE ZEIT, 27.11.2008
Nº 49

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